«Eu devia enviar cartões do Dia do Pai ao Pete Townshend.» A frase, dita por Eddie Vedder numa célebre entrevista à Rolling Stone, em 1993, resume o peso que a música dos The Who — e, em particular, a figura de Pete Townshend — teve na formação do vocalista dos Pearl Jam. A juventude de Vedder foi marcada por conflitos familiares e perdas, experiências que acabariam também por encontrar eco em algumas das canções mais marcantes da banda.
A declaração ajuda igualmente a perceber a posição peculiar que os Pearl Jam ocuparam na explosão do grunge. Apesar de terem surgido em Seattle, ao lado de nomes como Alice in Chains, Nirvana e Soundgarden, a banda mantinha uma forte ligação ao hard rock e ao rock clássico. Essa característica confundiu inicialmente parte da imprensa e das rádios, mas acabou também por distingui-los dos restantes contemporâneos.
Mas a história começa antes de os Pearl Jam sequer existirem. A origem da banda está ligada a uma tragédia que abalou a cena de Seattle, ao fim dos Mother Love Bone e a uma cassete enviada de Seattle para San Diego. Foi a partir desse material que Stone Gossard, Jeff Ament, Mike McCready e, pouco depois, Eddie Vedder começaram a construir o álbum que mudaria as suas vidas e deixaria uma marca profunda na história do rock norte-americano.
Uma cassete que atravessou o país
No final dos anos 1980, o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament, antigos membros dos pioneiros Green River, integravam os Mother Love Bone ao lado do vocalista Andrew Wood. A banda era uma das grandes promessas da cena de Seattle, tinha assinado contrato com uma grande editora e preparava-se para lançar o álbum de estreia, «Apple», quando Wood morreu de overdose de heroína, a 16 de Março de 1990. A tragédia pôs fim ao grupo e deixou Gossard e Ament sem rumo.
Ainda sob o impacto da morte do amigo, Chris Cornell, vocalista dos Soundgarden, escreveu «Say Hello 2 Heaven» e «Reach Down». Cornell convidou Gossard e Ament para gravarem as canções, inicialmente pensadas como uma homenagem pontual a Andrew Wood. O projecto acabaria, porém, por transformar-se nos Temple of the Dog, supergrupo que reuniria ainda Mike McCready e Matt Cameron, dos Soundgarden.
Em paralelo com as sessões dos Temple of the Dog, Gossard voltou a trabalhar em novas composições e chamou McCready para desenvolver algumas ideias. Ament juntou-se aos dois e o trio gravou uma cassete demo instrumental com cinco temas.
O material foi enviado a Jack Irons, antigo baterista dos Red Hot Chili Peppers, que tinha sido convidado a integrar a nova banda, mas recusou. Em vez disso, Irons entregou a cassete a um amigo que vivia em San Diego: Eddie Vedder, então vocalista dos Bad Radio, que trabalhava num posto de combustível e passava parte do tempo livre a fazer surf.
«Não posso juntar-me a eles», terá dito Irons a Vedder. «Mas estão à procura de um vocalista. Depois diz-me o que achaste.»
Inspirado pelas bases instrumentais, Vedder escreveu quase de imediato letras e melodias para três dos temas. Gravou as vozes sobre as faixas e chamou ao conjunto «Momma-Son», uma espécie de mini-ópera formada por «Alive», «Once» e «Footsteps». As três canções apresentavam uma narrativa interligada.
Em «Alive», o protagonista descobre que o homem que sempre julgara ser o seu pai não era, afinal, o seu pai biológico. O tema foi inspirado, ainda que de forma ficcionalizada, numa experiência pessoal de Vedder.
Em «Once», a personagem assume um comportamento violento e transforma-se num assassino. Já em «Footsteps», encontra-se na prisão e recorda os acontecimentos que o levaram até ali. A canção partilha a mesma base instrumental de «Times of Trouble», dos Temple of the Dog.
Vedder personalizou a caixa da cassete com desenhos, acrescentou o seu número de telefone — «para o caso de eles quererem ligar-me» — e enviou o material de volta para Seattle.
Gossard, Ament e McCready ficaram impressionados com a intensidade da interpretação e, sobretudo, com a forma como Vedder tinha transformado simples bases instrumentais em canções completas. Pouco tempo depois, convidaram-no a viajar até Seattle para participar numa audição.
«Hunger Strike» e a chegada a Seattle
Eddie Vedder chegou a Seattle em Outubro de 1990 para se juntar aos futuros companheiros dos Pearl Jam. A formação contava então também com o baterista Dave Krusen, recentemente recrutado.
Por essa altura, Chris Cornell encontrava-se a trabalhar com os Temple of the Dog e tinha marcado um ensaio. Vedder cumprimentou rapidamente Cornell no corredor e ficou discretamente a assistir enquanto a banda ensaiava. Até que começaram a tocar «Hunger Strike».
Vedder aproximou-se do microfone e improvisou um dueto com Cornell. O momento acabaria por se tornar decisivo. Cornell recordaria mais tarde como o então desconhecido cantor entrou naturalmente na canção, encontrando a parte vocal que faltava e ajudando a transformar «Hunger Strike» numa das composições mais marcantes do projecto.
Para Vedder, a participação teve um significado especial. Era a primeira vez que ouvia a sua voz num álbum lançado oficialmente.
O álbum homónimo dos Temple of the Dog seria lançado a 16 de Abril de 1991. «Hunger Strike» acabaria por se tornar o maior êxito do projecto, embora o verdadeiro sucesso só tenha chegado depois de Pearl Jam e Soundgarden já se encontrarem numa trajectória ascendente.
Entretanto, a nova banda — ainda conhecida pelo nome provisório Mookie Blaylock — começava a desenvolver o seu próprio repertório.
A 13 de Novembro de 1990, foram gravadas várias canções e ideias que documentam os primeiros passos da banda com Vedder. Entre o material trabalhado encontravam-se «Black», «Oceans» e «Release», que mais tarde integrariam «Ten». Surgiram também ideias embrionárias para o que viria a ser «Yellow Ledbetter».
Depois da primeira temporada em Seattle, Vedder regressou contrariado a San Diego para cumprir os seus compromissos profissionais. Mas a experiência já tinha deixado claro que a sua vida estava prestes a mudar.
Em Dezembro de 1990, colocou os seus pertences na carrinha e mudou-se definitivamente para Seattle. Os Pearl Jam estavam finalmente completos.
De Mookie Blaylock a Pearl Jam
A 10 de Março de 1991, Eddie Vedder e Jeff Ament foram entrevistados pela rádio KISW, de Seattle. Durante a conversa, anunciaram que os Mookie Blaylock tinham adoptado oficialmente o nome Pearl Jam e revelaram que, no dia seguinte, começariam a gravar o álbum de estreia para a Epic Records.
A produção ficaria a cargo de Rick Parashar, que tinha também trabalhado no álbum dos Temple of the Dog.
Durante anos, Vedder ajudou a alimentar a história de que o nome Pearl Jam teria surgido de uma receita especial preparada pela sua bisavó, Pearl. A origem real, contudo, era bem mais simples.
Segundo Jeff Ament, o nome surgiu depois de ele, Stone Gossard e Eddie Vedder terem assistido a um concerto de Neil Young, em Nova Iorque. Young tocou apenas cerca de oito canções, mas o espectáculo prolongou-se durante aproximadamente três horas, com longas passagens de improvisação.
Enquanto tentavam desesperadamente encontrar um nome para a banda, decidiram juntar «Jam» a «Pearl». No dia seguinte à entrevista, os Pearl Jam entraram nos London Bridge Studios, em Seattle, para iniciar as gravações do álbum de estreia.
Ao longo de Março e Abril de 1991, a banda registou a maior parte do material que viria a formar «Ten». O processo foi relativamente rápido, embora algumas canções tenham dado mais trabalho do que outras.
«Even Flow», em particular, revelou-se problemática. Dave Krusen recordaria mais tarde que a banda repetiu a canção dezenas de vezes, em parte devido à dificuldade em manter o andamento correcto. Em determinado momento, foi necessário editar a gravação para corrigir uma aceleração no final do tema.
Rick Parashar não se limitou a registar a banda. O produtor ajudou a definir a identidade sonora de «Ten», introduzindo teclados, incluindo órgão Hammond e Fender Rhodes, e trabalhando cuidadosamente as várias camadas de guitarra e os efeitos de ambiente.
O resultado foi um álbum mais amplo e atmosférico do que grande parte das gravações associadas à cena de Seattle.
Depois das sessões, o material seguiu para a fase de mistura. Tim Palmer, que já tinha trabalhado com os Mother Love Bone, ajudou a moldar o resultado final de temas como «Alive», «Black» e «Oceans».
Uma banda que não gostava de videoclipes
Em 1991, a MTV tinha uma influência enorme no mercado discográfico e na cultura popular. Para uma banda estreante como os Pearl Jam, a passagem pelo canal podia representar a diferença entre um lançamento discreto e um fenómeno internacional.
Havia apenas um problema: os Pearl Jam não gostavam particularmente de videoclipes. A banda defendia que as canções deviam falar por si mesmas, sem que a interpretação do ouvinte fosse condicionada pela visão de um realizador. Cada pessoa deveria poder criar as suas próprias imagens e associações a partir da música.
Apesar de terem acabado por ceder em algumas ocasiões à pressão da Epic, os Pearl Jam sempre olharam para o formato com alguma desconfiança.
«Alive» foi o primeiro teste. O single chegou às rádios norte-americanas a 1 de Agosto de 1991 e, dois dias depois, a banda gravou uma actuação no RKCNDY, em Seattle, para produzir um vídeo de baixo orçamento.
Realizado por Josh Taft, amigo de infância de Stone Gossard, o vídeo foi filmado a preto e branco e utilizou o áudio captado durante a própria actuação, em vez de recorrer simplesmente à sincronização com a gravação de estúdio.
Matt Chamberlain, que ocupava temporariamente o lugar de baterista, aparece no vídeo.
A escolha de mostrar a banda ao vivo foi deliberada. Os Pearl Jam queriam que o vídeo se aproximasse mais da experiência de assistir a um dos seus concertos e menos de uma produção cuidadosamente encenada. A estratégia funcionou.
À medida que «Ten» começou a ganhar terreno, «Alive» conquistou espaço na programação da MTV. O vídeo valeu à banda a primeira nomeação para os MTV Video Music Awards, em 1992, na categoria de Melhor Vídeo Alternativo. Depois de «Alive», seguiram-se outros vídeos relacionados com «Ten».
«Even Flow» teve inicialmente uma versão realizada por Rocky Schenck, que desagradou à banda e acabou por não ser utilizada. A alternativa surgiu a partir de imagens gravadas por Josh Taft durante um concerto no Moore Theatre, em Seattle, a 17 de Janeiro de 1992.
Foi esse material que acabou por dar origem ao vídeo oficial, mostrando Vedder a escalar estruturas do teatro e a lançar-se sobre o público.
«Jeremy» teve uma história ainda mais complexa. Uma primeira versão, realizada por Chris Cuffaro, foi rejeitada pela Epic. A segunda, realizada por Mark Pellington, transformou-se num dos vídeos mais marcantes da MTV nos anos 1990.
Lançado em 1992, «Jeremy» tornou-se um fenómeno cultural e levou os Pearl Jam a uma noite histórica nos MTV Video Music Awards de 1993, onde a banda venceu quatro prémios, incluindo Vídeo do Ano.
A canção que os Pearl Jam recusaram transformar num produto
Embora «Jeremy» aborde a negligência parental e tenha sido inspirado, em parte, num caso real de suicídio cometido por um adolescente perante os colegas de escola, o centro emocional de «Ten» encontra-se talvez noutro tema.
«Black» é uma das canções mais dolorosas e introspectivas do álbum: uma composição sobre perda, separação e a dificuldade de aceitar que alguém importante seguirá a sua vida sem nós. A música nasceu de uma base instrumental composta por Stone Gossard, inicialmente chamada «E Ballad». Era uma das cinco faixas incluídas na cassete enviada a Eddie Vedder em San Diego. Ao ouvir a composição, Vedder escreveu rapidamente uma letra sobre o fim de uma relação e a dolorosa percepção de que a pessoa amada continuaria o seu caminho.
Quando «Ten» começou a transformar-se num fenómeno, «Black» tornou-se uma das canções mais celebradas do álbum. Depois do sucesso de «Alive», «Even Flow» e «Jeremy», a Epic pressionou a banda para lançar «Black» como novo single e produzir um videoclip. Os Pearl Jam recusaram.
Vedder e os restantes membros consideravam a canção demasiado pessoal para ser submetida à lógica promocional da indústria musical.
A recusa, no entanto, não impediu «Black» de chegar às rádios. Mesmo sem um lançamento comercial como single nos Estados Unidos, a canção recebeu forte divulgação nas emissoras de rock e alcançou o terceiro lugar da tabela Mainstream Rock da Billboard em 1993.
De promessa local a fenómeno mundial
Lançado a 27 de Agosto de 1991 pela Epic Records, «Ten» teve inicialmente um desempenho relativamente modesto.
O álbum entrou na Billboard 200 em Setembro desse ano e foi subindo lentamente na tabela à medida que os Pearl Jam ganhavam exposição e construíam uma reputação cada vez mais forte ao vivo.
O salto decisivo aconteceu em 1992. Em Agosto desse ano, «Ten» alcançou o segundo lugar da Billboard 200, posição que manteve durante duas semanas. Ao todo, o álbum permaneceu 261 semanas na tabela durante a sua passagem original.
O sucesso colocou os Pearl Jam no centro da explosão do rock alternativo norte-americano.n Ao lado de «Nevermind», dos Nirvana, «Ten» ajudou a deslocar o centro de gravidade da música rock para Seattle e transformou uma banda até então praticamente desconhecida num fenómeno internacional.
Nos Estados Unidos, o álbum acabaria por receber certificação de 13 discos de platina. A promoção passou por uma extensa série de concertos que rapidamente transformou a agenda dos Pearl Jam numa autêntica maratona.
Em Outubro e Novembro de 1991, a banda participou numa digressão norte-americana associada a «Blood Sugar Sex Magik», dos Red Hot Chili Peppers, ao lado dos Smashing Pumpkins.
No início de 1992, o ritmo continuou intenso. Os Pearl Jam voltaram à estrada com os Red Hot Chili Peppers e partilharam algumas datas com os Nirvana. Seguiu-se a primeira grande passagem pela Europa, com concertos no Reino Unido, Países Baixos, Alemanha e outros países.
As vendas de «Ten» disparavam enquanto a banda permanecia constantemente na estrada.
O fim de um ciclo
Depois de meses de viagens e concertos, o ritmo começou a cobrar o seu preço. Durante o festival de Roskilde, na Dinamarca, a 30 de Junho de 1992, nove pessoas morreram depois de caírem e serem esmagadas pela multidão durante a actuação dos Pearl Jam.
A tragédia marcou profundamente a banda e tornou-se um dos episódios mais traumáticos da sua carreira. Os Pearl Jam cancelaram os restantes concertos da digressão europeia. O grupo regressava a casa depois de aproximadamente dezasseis meses de actividade praticamente ininterrupta.
Quando esse ciclo terminou, «Ten» já não era apenas o álbum de estreia de uma banda de Seattle. Era um dos discos fundamentais do novo rock norte-americano. E os Pearl Jam tinham-se transformado numa das maiores bandas do mundo.
35 anos depois, ainda a desafiar rótulos
Olhando para trás, Eddie Vedder considera que «Ten» continua a soar tão distinto como nos primeiros tempos dos Pearl Jam.
Mais do que um simples retrato de uma época, o álbum representa a descoberta de uma linguagem musical que não encaixava facilmente nos rótulos disponíveis na altura.
Apesar de terem sido rapidamente associados ao grunge, os Pearl Jam tinham uma identidade própria, construída a partir de referências que iam do rock clássico ao punk, passando por diferentes formas de rock alternativo.
Vedder descreveu essa sonoridade como algo diferente do que conhecia: havia guitarras e pedais, mas também uma forte preocupação com o ritmo e o groove.
Dave Grohl recordaria mais tarde que, quando ouviu «Alive» pela primeira vez na rádio, a canção lhe pareceu muito mais próxima do rock clássico do que do punk. Essa dificuldade em classificar a banda não era acidental. Jeff Ament explicou que os Pearl Jam não queriam que «Ten» fosse reduzido a um único estilo e fizeram questão de preservar a diversidade do material.
É por isso que, ao lado de temas como «Alive», «Even Flow» e «Jeremy», o álbum inclui também canções como «Oceans», «Release» e «Master/Slave». Havia, segundo Ament, uma sensação de urgência e uma sintonia particular entre os músicos. Todos estavam concentrados no mesmo objectivo: gravar aquele disco.
Ao mesmo tempo, existia uma ligação emocional entre os membros da banda. De formas diferentes, todos lidavam com perdas, mudanças e sentimentos de solidão.
Stone Gossard pegou nessa dor e transformou-a em música. E foi dessa combinação de urgência, perda, ambição e química criativa que nasceu «Ten»: um álbum que ultrapassou rapidamente a etiqueta do grunge e que, 35 anos depois, continua a ser uma das obras fundamentais do rock dos anos 1990.
