Rotulagem de IA está a chegar – O essencial
A IFPI, RIAA, A2IM, WIN, IMPALA, os Grammys, a SAG-AFTRA e a Human Artistry Campaign apresentaram um sistema conjunto de rotulagem para música com IA. Existem dois rótulos:"AI-Generated" – quando a IA cria os principais elementos criativos, como a voz principal ou os instrumentos principais. "AI-Assisted" – quando o ser humano continua a ser o principal criador, mas a IA é utilizada em partes específicas do processo. As letras e as composições estão explicitamente excluídas do sistema. Assim, uma música totalmente composta por IA pode não receber qualquer rótulo se for interpretada por músicos humanos.
No futuro, estes rótulos deverão aparecer também nas capas dos álbuns, de forma semelhante ao autocolante "Explicit Lyrics". Os principais serviços de streaming, como Spotify, Apple Music, YouTube e Amazon Music, ainda não fazem parte da iniciativa. A Deezer revelou que, em abril, 44% das novas faixas carregadas na plataforma eram geradas por IA, quase quatro vezes mais do que há um ano.
Rotulagem de IA para música: tudo sobre o novo sistema da IFPI, RIAA e BVMI
O rótulo "AI-Generated" aplica-se sempre que uma IA generativa cria a voz principal ou os principais instrumentos da gravação. Não é necessário que toda a música seja criada através de um simples prompt.
Já "AI-Assisted" significa que a gravação é essencialmente produzida por pessoas, com voz principal e instrumentos executados por humanos, mas em que a IA foi utilizada para auxiliar alguns elementos expressivos.
Segundo Florian Drücke, presidente da BVMI, 83% dos fãs querem precisamente este tipo de transparência.
A Deezer informou em abril que a música gerada por IA já representa 44% de todas as novas faixas carregadas, quase quatro vezes mais do que no ano anterior. Segundo a plataforma, 43% dos utilizadores que migraram de outros serviços já tinham músicas criadas por IA nas suas listas de reprodução.
Por sua vez, a Apple Music afirmou que mais de um terço das faixas submetidas à plataforma são "100% IA".
Os números mostram claramente que a música criada com IA já faz parte do dia a dia de uma grande parte dos utilizadores dos serviços de streaming.
O que o sistema de rotulagem deixa deliberadamente de fora
É aqui que começam as críticas. Os novos rótulos aplicam-se exclusivamente à utilização de IA generativa na gravação sonora. Ficam completamente de fora:
- letras;
- composição musical;
- videoclipes;
- capas dos álbuns.
Ainda mais surpreendente é o caso da composição. Uma obra pode ser composta integralmente por uma IA e continuar sem qualquer rótulo, desde que os instrumentos e a voz sejam executados por músicos humanos.
Hoje em dia, muitas ferramentas de IA conseguem gerar partituras completas sem dificuldade, o que significa que uma música pode ter sido totalmente concebida por uma máquina, apesar de ser interpretada por pessoas.
Para uma iniciativa cujo principal objetivo é promover transparência, esta omissão relativamente às letras e à composição é difícil de justificar. Pelo menos, a BVMI afirma que o sistema deverá "evoluir à medida que a tecnologia e as necessidades forem mudando". Na prática, pretende-se que os rótulos apareçam não apenas nos metadados, mas também diretamente nas capas dos álbuns, tal como acontece com o conhecido aviso "Explicit Lyrics".
A participação voluntária é a maior fraqueza do sistema
Existe um segundo problema. A utilização destes rótulos é totalmente voluntária. Não existe qualquer obrigação para editoras, distribuidores ou artistas. Além disso, os maiores serviços de streaming — Spotify, Apple Music, YouTube e Amazon Music — nem sequer fazem parte da iniciativa.
A organização responsável por representar estas plataformas é a Digital Media Association (DMA) que, segundo o Wall Street Journal, afirma que, para já, irá apenas acompanhar a evolução do projeto, privilegiando a criação de metadados mais fiáveis que acompanhem a música desde o criador até ao ouvinte.
O Spotify já introduziu uma medida própria ao criar uma identificação para artistas verificados e reais, numa tentativa de reduzir a proliferação de conteúdos de baixa qualidade gerados por IA.
No entanto, estes novos rótulos deverão ser aplicados pelas próprias editoras e empresas musicais, e não pelas plataformas. Sem o envolvimento dos principais serviços de streaming, continua por esclarecer até que ponto esta informação chegará efetivamente aos ouvintes.
Importa ainda referir que a RIAA e as restantes organizações envolvidas não se posicionam contra a utilização da IA na música. Pelo contrário, defendem que os artistas devem continuar a poder utilizar esta tecnologia. O objetivo é promover transparência, e não proibição, o que torna ainda mais difícil compreender por que razão as letras e a composição ficaram excluídas.
Conclusão
Um sistema unificado de rotulagem para música criada com IA era claramente necessário. Conseguir reunir tantas organizações internacionais da indústria — desde as grandes editoras às independentes representadas pela IMPALA e WIN, passando pela SAG-AFTRA e pelos Grammys — é, por si só, um feito importante.
Contudo, o sistema continua incompleto em aspetos fundamentais:
- não abrange letras nem composição;
- a sua utilização é voluntária;
- os principais serviços de streaming ainda não aderiram.
A evolução desta iniciativa continuará certamente a merecer atenção, já que o impacto da inteligência artificial na música diz respeito a toda a indústria.
