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Existe uma armadilha que ameaça todas as bandas que tiveram um álbum de estreia demasiado marcante: passar o resto da carreira a tentar recriá-lo ou, pelo contrário, a fugir dele com tanta determinação que o resultado acaba por soar meramente defensivo.

Os Interpol convivem com essa sombra desde 2002, quando Turn On the Bright Lights definiu o som de toda uma geração. Na altura, porém, a pressão parecia ter pouco peso. Os álbuns que se seguiram, Antics (2004) e Our Love to Admire (2007), foram igualmente aclamados e acabaram também por se tornar clássicos.

Vinte e quatro anos depois, esse desafio parecia estar cada vez mais presente na carreira da banda. Agora, porém, os Interpol encontram uma resposta particularmente elegante em This Mirror Weighs a Ton, o seu melhor trabalho desde El Pintor (2014).

Editado pela Partisan Records, o oitavo álbum de estúdio da banda é o primeiro disco de material inédito desde The Other Side of Make-Believe, de 2022, e também o primeiro gravado em Nova Iorque em mais de uma década.

A produção esteve a cargo de Andrew Wyatt, dos Miike Snow, enquanto a mistura ficou nas mãos de Dave Fridmann. A dupla ajuda a explicar boa parte da amplitude sonora do álbum. Há ainda uma novidade importante nos créditos: Brad Truax, baixista de digressão dos Interpol desde a saída de Carlos Dengler, participa finalmente no processo de composição — e acaba por ser uma das grandes forças do disco.

Um álbum que olha para trás sem andar para trás
O novo álbum reconecta-se com as raízes da banda ao mesmo tempo que expande a sua linguagem sonora, sem que uma coisa comprometa a outra.

O exemplo mais evidente surge logo na segunda faixa, “See Out Loud”, que poderia perfeitamente ter surgido durante a época de Turn On the Bright Lights ou Antics. Os vocais de Daniel Kessler no segundo verso são particularmente marcantes.

O guitarrista, aliás, está em excelente forma. Kessler apresenta algumas das linhas mais criativas da sua carreira, com especial destaque para a forma como interage com o baixo de Truax em “Darling Thoughts”, outro dos grandes momentos do álbum e uma faixa que recupera claramente elementos dos primeiros anos do quarteto.

No extremo oposto está “Wake Up”, que representa a vontade de explorar novos territórios. A faixa introduz bongôs e uma percussão que dificilmente faria parte de qualquer previsão sobre o som dos Interpol. E, ainda assim, tudo parece profundamente característico da banda.

É também um dos momentos em que Sam Fogarino mais se destaca. Kessler assume igualmente um papel de grande protagonismo numa música que soa completamente diferente de tudo aquilo que poderíamos esperar dos Interpol e que, simultaneamente, se encaixa na perfeição na sua estética.

É precisamente esta contradição que define This Mirror Weighs a Ton: recuperar o passado sem ficar preso a ele.

This Mirror Weighs a Ton apresenta os Interpol na sua melhor forma em duas décadas
Outro dos grandes trunfos do álbum é a forma como aborda a melancolia, um elemento fundamental da identidade dos Interpol.

Com uma atmosfera quase futurista, perfeitamente traduzida pelo seu visualizer, “Iron City” transforma a sensação de estar perdido numa selva de betão numa reflexão sobre a vida nas grandes cidades. A faixa aborda ainda temas como a inteligência artificial, relacionando-os com essa sensação cada vez mais familiar de sermos constantemente absorvidos pelo ambiente urbano.

“Enemy”, por outro lado, coloca Kessler ao piano e conduz os Interpol para um território que evoca sombras de Nick Cave e Radiohead. A frieza dessas referências é, contudo, substituída por uma abordagem muito mais pessoal e emocional, que chega a aproximar a banda de outros nomes da mesma geração, como os The National.

É difícil ouvir This Mirror Weighs a Ton sem perceber o impacto da presença de Brad Truax. O baixista parece preencher na perfeição os espaços deixados pelos arranjos e acrescenta uma nova dinâmica à secção rítmica. É possível que tenha sido precisamente a peça que faltava para levar os Interpol para além das limitações sentidas em alguns dos seus trabalhos anteriores.

O novo álbum parece também representar um momento de reflexão sobre o próprio passado da banda — mas, desta vez, o passado é utilizado como uma vantagem.

Outro aspecto fundamental é a consistência do álbum. Numa época dominada pelo excesso de singles, This Mirror Weighs a Ton funciona sobretudo como um disco completo. Até as faixas previamente divulgadas, inevitavelmente apresentadas antes do lançamento como parte da estratégia promocional, ganham uma nova dimensão quando ouvidas no contexto do álbum.

Depois de mais de duas décadas a gerir o próprio legado, os Interpol entregam aqui o retrato de uma banda que finalmente deixou de competir com o seu passado.

E talvez seja precisamente por isso que This Mirror Weighs a Ton soa tão convincente: os Interpol voltam a compor como se ainda tivessem alguma coisa a provar.