Em 24 de dezembro de 2014, David Bowie publicou uma mensagem de Natal no seu site oficial que soava leve, espirituosa e cheia de vitalidade. “Desejo-vos boas festas e estamos todos ansiosos por um ano novo agitado, mas animado, bastante sexy e louco por música, não é verdade?”, escreveu, rematando com um entusiasmado “Oh, sim, estamos!!”. Na altura, nada fazia prever que aquele optimismo convivia com uma realidade dura e silenciosa.
Seis meses antes, Bowie tinha sido diagnosticado com cancro no fígado. A doença foi enfrentada longe dos holofotes, mantida em absoluto segredo durante cerca de um ano e meio. Apenas familiares e amigos muito próximos conheciam a sua condição. O público só viria a saber dessa batalha após a sua morte, a 10 de janeiro de 2016, dois dias depois de completar 69 anos — e exactamente no fim de semana do lançamento de Blackstar, o seu último álbum de estúdio.
Este contexto dá outro peso à obra final de Bowie. Embora nunca tenha tornado público o diagnóstico, a consciência da própria finitude atravessa Blackstar de fio a pavio, tanto na sonoridade como nos temas. O disco rompe com qualquer expectativa de nostalgia ou acomodação: mergulha no jazz contemporâneo, na experimentação e em letras carregadas de ambiguidade, simbolismo e reflexões sobre morte, transcendência e legado.
Tony Visconti, produtor e parceiro criativo de Bowie durante décadas, definiu Blackstar como um “presente de despedida”. A afirmação resume não só a intenção do artista, mas também o cuidado quase artesanal com que cada detalhe foi pensado — das gravações aos videoclipes, passando pela construção de personagens e metáforas. Para Rob Sheffield, crítico e biógrafo do músico, o feito é ainda mais singular: “Nenhuma outra estrela do rock deixou um testamento como este.”
Indícios de uma nova direcção
Em janeiro de 2015, David Bowie entrou no estúdio The Magic Shop, em Nova Iorque, para dar início às gravações do que viria a ser Blackstar. As sessões foram organizadas em três blocos intensivos de uma semana, entre janeiro e março desse ano, sob a direcção de Tony Visconti. Ao seu lado, Bowie reuniu o quarteto de jazz liderado pelo saxofonista Donny McCaslin — com Mark Guiliana (bateria), Ben Monder (guitarra), Tim Lefebvre (baixo) e Jason Lindner (piano) — músicos decisivos na redefinição estética da sua obra final.
Esta nova direcção, no entanto, já vinha a ser anunciada antes das sessões formais. Duas faixas tinham sido gravadas ainda em 2014. Lançada em novembro desse ano como single da colectânea Nothing Has Changed, “Sue (Or in a Season of Crime)” foi descrita pelo The Guardian como “menos uma canção tradicional e mais uma odisseia jazzística cinematográfica”, sublinhando a capacidade permanente de reinvenção de Bowie, mesmo numa fase tardia da carreira.
A génese de “Sue” remonta a uma visita de Bowie e Visconti ao Birdland, histórico clube de jazz nova-iorquino, onde assistiram a um concerto da compositora e maestrina Maria Schneider com a sua big band de 17 músicos — entre eles McCaslin e Guiliana. “Fiquei completamente impressionado com a beleza e o poder da música dela”, recordou Visconti à NME. Ao descobrir a ligação de Schneider a Gil Evans, de quem fora aluna e copista, Visconti reconheceu de imediato uma afinidade: Evans era uma referência comum a ele e a Bowie.
Apesar de raramente se ter aprofundado no jazz — com excepção de colaborações pontuais, como “This Is Not America”, gravada com o Pat Metheny Group em 1985 —, Bowie decidiu trabalhar directamente com Schneider. As sessões decorreram em julho de 2014. Segundo Visconti, tudo começou com uma demo sem título enviada por Bowie. Durante longos ensaios, Schneider e os músicos improvisaram extensivamente sobre uma linha de baixo, até que a compositora e o cantor definiram a estrutura final. Só no dia da gravação Bowie apresentou a letra e revelou o título da faixa: “Sue”.
No plano lírico, a canção constrói-se como um relato noir na primeira pessoa, atravessado por temas de amor e mortalidade. Já o lado B do single, “’Tis a Pity She Was a Whore”, recupera o título de uma peça inglesa do século XVII para abordar a devastação da Primeira Guerra Mundial. Bowie chegou a afirmar à Rolling Stone que, “se os vorticistas escrevessem rock, poderia soar assim”, numa referência ao movimento modernista britânico que antecedeu o conflito. Em conjunto, estas faixas antecipavam com clareza o território estético radical que Bowie estava prestes a explorar.
A última aprendizagem
Um ano depois das primeiras gravações que apontavam para uma viragem estética decisiva, David Bowie voltou a surpreender. Em novembro de 2015, sem qualquer aviso prévio ao público e já consciente de que o seu cancro era terminal, lançou “Blackstar”, uma canção com cerca de dez minutos que fundia jazz de vanguarda à la John Coltrane com a pulsação do hip hop electrónico de Afrika Bambaataa e da Soulsonic Force. Ao mesmo tempo, anunciou um álbum homónimo, previsto para janeiro seguinte, no dia do seu 69.º aniversário.
Para o biógrafo Rob Sheffield, Bowie nunca lançava música sem um propósito claro. O videoclipe de “Blackstar” reforça essa leitura ao mostrar uma mulher num planeta distante a encontrar os restos mortais do Major Tom, personagem de “Space Oddity”, com o crânio ornamentado por jóias dentro de uma cápsula destruída. Musicalmente, a faixa alterna momentos etéreos com explosões rítmicas e uma letra fragmentada, na qual Bowie parece encenar o próprio fim.
Seguiu-se o videoclipe de “Lazarus”. Nele, Bowie surge num leito de hospital, com os olhos vendados, cantando sobre feridas invisíveis e anunciando, de forma desconcertante: “Look up here, I’m in heaven”. A canção, assente numa base jazzística tensa e melancólica, funciona como uma confissão directa, quase sem metáforas, e tornar-se-ia o eixo emocional do álbum.
A morte de Bowie, a 10 de janeiro de 2016 — apenas dois dias após o lançamento de Blackstar —, conferiu ao disco uma aura premonitória inevitável. À revista Mojo, o baixista Tim Lefebvre contou ter identificado “sinais de morte iminente” nas letras, embora Bowie, mesmo a gravar durante sessões de quimioterapia, parecesse forte e bem-disposto. Após a morte do artista, Tony Visconti revelou que Bowie teve de contar aos músicos sobre a doença quando já não conseguiu esconder a queda de cabelo — e que todos mantiveram o segredo.
Apesar da ampla liberdade criativa concedida ao grupo, Visconti afirmou que Bowie tinha uma referência central em mente: To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar, o seu álbum favorito desse ano. A escuta atenta do rapper inspirou Bowie a procurar uma nova forma de construir canções, confirmando, como observa Sheffield, que “ainda não tinha acabado de aprender”.
Terminadas as sessões de Blackstar, Bowie dedicou grande parte do seu último ano ao musical Lazarus. Em cena por uma curta temporada no East Village, a peça retoma a história de O Homem que Caiu na Terra (1976): décadas depois, o alienígena interpretado por Bowie regressa como um ser rico, alcoólico e infeliz, agora vivido por Michael C. Hall, protagonista da série Dexter. Ao conhecer uma jovem que assume a figura de anjo e filha simbólica, recupera a vontade de viver e constrói uma nave para finalmente regressar a casa. No fim, tudo se liga: Major Tom, Blackstar, Lazarus — uma despedida cuidadosamente arquitectada.
O adeus que chegou ao topo das tabelas
Depois do seu lançamento, a 8 de janeiro de 2016, Blackstar precisou de apenas 48 horas para deixar de ser o álbum mais recente de David Bowie e passar a ser o seu testamento final. A morte do artista transformou a obra numa despedida consciente: o disco chegou ao topo das tabelas americanas pela primeira vez na carreira de Bowie.
O álbum foi recebido com aclamação crítica quase unânime — alcançando uma pontuação agregada de 87 em 100 no Metacritic —, com elogios à fusão ousada de jazz, electrónica e rock experimental, bem como à intensidade emocional das suas sete faixas. Publicações como The Guardian sublinharam que Blackstar representava um salto arrojado, explorando territórios musicais raramente visitados por Bowie, destacando tanto a profundidade como o risco artístico.
Os músicos envolvidos no projecto também reflectiram sobre o impacto da obra. O saxofonista Donny McCaslin afirmou à Forbes que Bowie estava “tão satisfeito com o resultado que parecia saber ter criado algo importante e duradouro”. McCaslin destacou em particular a faixa “I Can’t Give Everything Away” — que daria título à caixa retrospectiva de 13 CDs lançada em 2025 — como um momento de optimismo no meio da melancolia.
No Reddit, fãs expressaram a força emocional do álbum, interpretando letras e sonoridades como um confronto directo com a mortalidade de Bowie e uma exploração profunda da sua própria vida e legado. Mais do que o ponto final na carreira de um dos maiores artistas do rock, Blackstar afirma-se como um gesto final de controlo artístico absoluto. Bowie escolheu como partir: a trabalhar, a desafiar convenções e a transformar a própria morte em arte.
A mensagem natalícia de 2014, relida hoje, não soa a ironia, mas a uma afirmação de um artista que preferiu celebrar a música, a (re)invenção e a vida — mesmo perante o fim inevitável.
