Num cenário cinematográfico frequentemente engessado por cinebiografias que polemizam e domesticam os seus retratados, Marty Supreme irrompe como uma descarga elétrica de 110 volts.
Sob o comando de Josh Safdie, o filme mimetiza o ritmo de uma partida de pingue-pongue profissional, mostrando-se veloz, obsessivo, ruidoso e tecnicamente impecável, indo além de uma simples narração da trajectória de Marty Mauser (vago alter ego do lendário Marty Reisman).
Ao contrário de biopics convencionais que buscam a redenção ou a santificação do herói – como o morno Um Completo Desconhecido, protagonizado pelo próprio Timothée Chalamet em 2024 – Marty Supreme abraça o caos.
Safdie não quer que apenas se entenda Marty; ele quer que se sinta a ansiedade, o suor e o delírio de um homem que transformou um retângulo de madeira no seu campo de batalha existencial. É um filme que, em vez de pausas para fôlego, entrega detonações de má conduta, humor ácido e uma busca febril por reconhecimento.
O Furacão e a Vulnerabilidade
A narrativa transporta-nos para a Nova York de 1952, onde nos deparamos com um jovem judeu que se recusa a ser apenas um vendedor de sapatos. Com o rosto marcado por cicatrizes de acne e um bigode de rato, ele despe-se de qualquer vaidade para encarnar um “artista da lábia”.
Timothée entrega a performance definitiva da sua maturidade artística, sendo um motor perpétuo em cena. Falando ininterruptamente por duas horas e meia, equilibrando a arrogância de quem se autodenomina “o maior do mundo” com a fragilidade de um pária que busca, no fundo, escapar da própria invisibilidade.
Josh Safdie, mestre do cinema de urgência, encontra em Marty o veículo perfeito para o seu estilo “nervoso”. Com a colaboração do director de fotografia Darius Khondji e do mestre em design de produção Jack Fisk, o filme reconstrói uma Nova York de porões enfumaçados e hotéis decadentes que pulsa com perigo e melancolia.
A banda sonora de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) é um capítulo à parte: ao fundir os sintetizadores anacrónicos dos anos 80 com a atmosfera dos anos 50, ele cria um entranhamento sensorial que acentua o isolamento psicológico do protagonista.
As relações de Marty – seja com a sofisticada Kay Stone (Gwyneth Paltrow, num retorno triunfal e contido) ou com a vulcânica Rachel (Odessa A’zion) – não são meros adornos românticos; são jogos de poder e validação. Paltrow, em especial, funciona como o contraponto perfeito ao frenesim de Chalamet – ela é a estaticidade elegante que entende o custo da ambição muito antes de Marty sequer cogitar que o sucesso tem um preço.
O Retrato do “Artista da Trapaça”
Sim, Marty Supreme tem os seus excessos. Com 2h29 de duração, o filme pode soar indulgente e exaustivo no seu terço final, quando a espiral de desastres e esquemas de Marty parece não ter fim.
O roteiro de Safdie e Ronald Bronstein às vezes prefere o movimento ao significado, deixando algumas questões sobre a identidade judaica e o contexto de pós-guerra como texturas de fundo ao invés de temas plenamente explorados – no entanto, essa parece ser uma escolha deliberada: para Marty, nada importa além do próximo saque.
Mais do que um filme sobre pingue-pongue, Marty Supreme é uma autópsia do sonho americano na sua forma mais crua e patológica. É uma obra que entende que a ambição não é apenas combustível, mas também uma armadilha. Safdie mostra-nos que Marty não mente para ganhar; ele mente para existir. Ele é o pesadelo de Hitler e a personificação do “moxie” nova-iorquino – um homem que prefere a combustão interna ao anonimato.
Com uma direcção que persegue os personagens como se estivesse numa caçada e um elenco de apoio fascinante (que inclui de Tyler, the Creator a Kevin O’Leary), o filme é um triunfo do cinema autoral. Marty Mauser pode não ser o herói que queríamos, mas é o exacto tipo de “furacão” de que o cinema precisava.
Ele prova que, às vezes, a grandeza não está no destino final – e sim na insistência de continuar jogando a bolinha de um lado para o outro, mesmo quando o mundo inteiro pede para você parar.
