Mesmo para quem nasceu depois do fim dos Beatles, ou seja, dos anos 1970 em diante, a imagem de John, Paul, George e Ringo tocando no topo de um prédio em pleno inverno até serem interrompidos pela polícia é algo profundamente marcante.
Esse foi o último registo da maior banda de rock de todos os tempos: um símbolo de rebeldia, de espontaneidade e uma boa dose de “saco cheio”, já que, àquela altura, os músicos não viam a hora de se separar.
Vamos relembrar os bastidores e curiosidades por trás do famoso “show no telhado”, que aconteceu há 55 anos, em 30 de janeiro de 1970?
Histórico álbum Let It Be nasceu quase que por acaso
No final de 1969, os Beatles reuniram-se para gravar o que seria o último álbum da carreira – inicialmente baptizado como Get Back, mas que hoje conhecemos como o lendário disco Let It Be. Considerando os conflitos internos cada vez maiores, os próprios integrantes já sabiam que este seria o último.
Paul McCartney teve a ideia de registar todo o processo de composição com os quatro juntos em estúdio, e depois apresentar as músicas inéditas nalgum local inusitado, para transformar as imagens num filme ou documentário.
O diretor Michael Lindsay-Hogg, então, começou as filmagens pensando no formato de especial para a TV, com uma hora de duração, que se chamaria Beatles at Work.
Mas as interações que ele captou entre os Beatles foram tão tensas e intensas que renderam longas horas de material, e o projecto ficou engavetado por mais de 50 anos, até que Peter Jackson aproveitou as imagens inéditas para o documentário The Beatles: Get Back, lançado em 2021.
Insatisfeito, George Harrison abandonou os Beatles
Portanto, foi só nos anos 2020 que tivemos uma ideia clara da confusão que tomou conta dos Beatles naquela época, que John Lennon chegou a definir como “um inferno”.
Um exemplo disso é que, no meio das gravações em 1969, irritado com a supremacia Lennon-McCartney nas composições, o guitarrista George Harrison abandonou o projeto.
John e Paul precisaram ir até à casa de George e ele deu duas condições para voltar: que os Beatles terminassem o trabalho no recém-inaugurado estúdio da Apple, a gravadora da banda, e que focassem na criação de músicas novas, e não em um show para a TV.
Por isso, as ideias extravagantes que a banda e seus empresários haviam cogitado – incluindo apresentar-se num barco, numa penitenciária, no Coliseu de Roma e até no deserto da Líbia – foram trocadas por uma ideia mais simples: um show surpresa no próprio prédio em que estavam, no telhado da Apple Corps.
Show no telhado da Apple Corps teve todos os ingredientes de um dia histórico
Então, por volta do meio-dia numa quinta-feira gelada, os Beatles vestiram seus casacos pesados (com Lennon usando a icónica jaqueta de pele emprestada por Yoko Ono) e subiram ao topo do prédio para tocar cinco músicas.
A apresentação durou cerca de 42 minutos, porque várias canções foram repetidas para takes diferentes. Mas, no final, as músicas registadas naquela tarde histórica foram: “Get Back”, “Don’t Let Me Down”, “I’ve Got a Feeling”, “One After 909” e “Dig a Pony”.
A reação foi imediata: trabalhadores largaram os seus escritórios, vizinhos aglomeraram-se nas ruas para assistir ao espetáculo e, claro, a polícia de Londres chegou para interromper a “confusão” que tomou conta da rua Savile Row.
Com isso, os Beatles mostraram pela última vez toda a sua irreverência e, principalmente, que apesar de todas as divergências de opinião, quando tocavam juntos, ainda eram capazes de fazer magia.
Semanas depois, os Fab Four terminaram o álbum Let It Be, e o engenheiro de som Glyn Johns teve liberdade absoluta para mixar o trabalho como achasse melhor. O resultado foi simplesmente um dos melhores discos de todos os tempos!
