O ano de 2025 foi curioso para o cinema: directores consagrados testaram caminhos inesperados, novidades recentes consolidaram-se e algumas histórias mostraram que ainda há espaço para muita criatividade.
No meio de tanta coisa a acontecer, alguns títulos destacaram-se não pela grandeza ou pela importância, mas pela clareza com que conversam com o nosso tempo, tanto politicamente quanto em aspectos mais específicos, como tensões, medos e contradições.
A lista abaixo reúne filmes que conseguiram provocar conversa, agitar a crítica e o público, emocionar ou simplesmente lembrar-nos que ainda vale a pena ir ao cinema!
10 – Weapons (A hora do Mal) - Zach Cregger
Cregger continua desconcertando o público com histórias ousadas e desconfortáveis. O filme prende-nos justamente por trazer situações extremas onde normalmente deveria haver segurança – como uma escola de educação infantil.
O que fica, então, é uma sensação de inquietação. Quase não há jump scares, os sustos são pontuais e bem encaixados, e saímos com uma estranha satisfação, mesmo com a conclusão brutal.
9 – K-Pop Demon Hunters (Guerreiras do K-Pop) - Maggie Kang e Chris Appelhans
A animação mistura aventura, humor e referências da cultura pop contemporânea para contar uma história sobre união e identidade. O visual tem personalidade e brinca com linguagens de clipes, jogos e com a dinâmica dos palcos mundo afora.
O filme é construído num formato bem clássico, aquela Sessão da Tarde de conforto para assistir em família, mas ainda existe um comentário leve sobre a pressão de viver sob expectativas públicas. E, claro, as músicas são sensacionais e já viraram fenómeno cultural.
8 – O Filho de Mil Homens - Daniel Rezende
Rezende adapta Valter Hugo Mãe com delicadeza, valorizando o afecto e o invulgar que fazem parte da obra original. A história fala sobre o sentimento de pertença e reinvenção familiar de um modoito sensível, mas sem deixar a narrativa melosa demais.
É um filme que foi muito esperado pelos fãs do escritor, no final de contas, acolhe todo esse pessoal que aguardou ansiosamente pela adaptação.
7 – Bring Her Back (Volta Para Mim) - Michael e Danny Philippou
A dupla mantém o ritmo pelo qual ficou conhecida (eles dirigiram o óptimo Fala Comigo (Talk to Me), de 2022). Mas, aqui, há mais investimento nas feridas emocionais dos personagens e suas consequências, colocando um pezinho no horror corporal. O filme equilibra o terror físico, o suspense psicológico e um olhar mais íntimo sobre o luto e a necessidade de controle.
Esse é um daqueles filmes para ficar revirando de agonia mesmo depois de ele acabar. No fim, é mais um passo positivo na carreira dos irmãos.
6 – Sentimental Value (Valor Sentimental) - Joachim Trier
Trier retoma os seus dramas afectivos com a precisão emocional de sempre, observando pessoas que tentam recompor o que sobrou delas próprias após sucessivas crises. A história desenrola-se sem pressa, mas com intensidade.
É o tipo de drama familiar tão bem alinhado que parece que nós mesmos somos parte daquela realidade. Uma mistura de ficção com sentimentos muito reais.
5 – Bugonia - Yorgos Lanthimos
Não é à toa que Lanthimos é um dos directores de maior expressão em Hollywood na actualidade. Aqui, novamente, ele constrói uma fábula distorcida sobre consciência e fuga, conectando a história com o público por meio de aspectos constrangedoramente realistas. A narrativa avança com uma forma de humor bizarramente encantadora.
Uma das melhores faces do director grego é a que aposta na confusão e na falta de entendimento, porém, sem esconder suas críticas afiadas – nesse caso, sobre poder e manipulação.
4 – It Was Just an Accident (Foi Apenas um Acidente) - Jafar Panahi
Panahi trabalha com recursos mínimos, mas extrai dali uma observação profunda sobre injustiça e vingança. Tudo isso acontece num cenário opressor, que é o Irão, reflectindo questões que têm muito a ver com a vida do próprio director.
O poder desse filme está no não-dito: a produção foi realizada em segredo, sem autorização do governo do país, então cada escolha carrega peso real e amplia o discurso político de resistência.
3 – One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra) - Paul Thomas Anderson
Paul Thomas Anderson entrega um filme que parece sempre à beira de sair dos trilhos, só que de propósito. São personagens perdidas, confrontos e momentos de humor estranho, que, unidos, formam um retrato de obsessões muito humanas.
Parece o tipo de filme que a que se assiste por obrigação, aquele espírito de “eu tenho que assistir ao novo filme do Paul Thomas Anderson de que toda agente fala”. Porém, no fim de contas, ele é muito mais divertido do que parecia inicialmente.
2 – O Agente Secreto - Kleber Mendonça Filho
Mais uma obra brasileira repleta de tensão política, um retrato de uma época que ainda deixa muitos brasileiros apreensivos. O filme é forte em vários sentidos e faz uma importante reflexão histórica sobre memória.
Produzir obras politizadas tem-se tornado um desafio, mas o cinema brasileiro encontrou justamente aí a passagem para uma das suas melhores fases. Além disso, é um reforço para que o público se lembre da arte como ferramenta de resistência.
1 – Sinners (Pecadores) - Ryan Coogler
Coogler constrói uma história sobre fé e representatividade num cenário de época tenso, com personagens tão interessantes que cada um poderia sustentar o seu próprio filme. Apesar de ser muito focado na cultura dos EUA e na luta histórica contra o racismo nesse país, dá para se identificar bastante com a trama e tirar dela o que há de mais profundo.
Destaque especial para a forma como Coogler usa o som como elemento narrativo, já que a música se torna quase um personagem por si só.
